quarta-feira, 19 de outubro de 2016

O que é uma revolução?



por Erick Ferreira



                        O que é a Revolução? Uma simples revolta contra um estado de coisas? A deposição de um tirano? Foi isso que nos fizeram crer ao longo de séculos a respeito deste fenômeno, de modo que seu sentido chegou a nossos ouvidos belo e suave, como a expressão de um acontecimento esplendoroso e transformador. Mas, ao contrário do que nos fizeram crer, a revolução é a expressão da revolta mais radical contra uma ordem e um sentido no homem e na existência. Sua consequência natural é a tirania, e sua força motriz, é o ódio.  

A revolução costuma interromper a caminhada ascendente de uma civilização, e confina-la a um pensamento cíclico (paraíso terreno, queda, redenção, e retorno ao paraíso terreno), – como o próprio étimo da palavra sugere (revolução, do latim re-volvere, ou seja, “dar uma volta”, “revolver”) – que não o permite ir além da expectativa revolucionária, mas sempre, tem que se rebelar contra um estado de coisas apontado pela elite revolucionário, para retornar a uma utópica “idade de ouro” da humanidade.
A revolução é um eterno retorno, ou tentativa de retornar a um lugar desconhecido, do qual a humanidade se afastou por algum desvio de conduta, e assim, recuperar a inocência perdida. Em outras palavras, a revolução é a promessa de uma redenção da humanidade através da política, da cultura e da economia. Porém, ao mesmo tempo em que o espírito revolucionário incita a busca de um lugar desconhecido, -- no qual eles nunca estiveram --, e a um estado ideal -- que eles nunca experimentaram --, a revolução propõe uma rejeição radical do passado em detrimento deste futuro hipotético. “A revolução social do século XIX, escreve Marx, não pode tirar sua poesia do passado, e sim do futuro. Não pode iniciar sua tarefa enquanto não se despojar de toda veneração supersticiosa do passado”1. Não é curiosa esta contradição do espírito revolucionário? Quer reconstruir a sociedade com base em um estado de coisas passadas, sem recorrer a nada do passado! São contradições como estas que fazem do espírito revolucionário um mero devaneio juvenil.

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A revolução, – como expressa um autor francês do século passado –, na melhor definição já feita sobre o termo, é:
O ódio por toda a ordem social e religiosa que não tenha sido estabelecida pelo homem e na qual ele não seja rei e deus ao mesmo tempo. É a proclamação dos direitos do homem sem respeito aos direitos de Deus; a filosofia da revolta; a política da revolta; a religião da revolta; a negação armada; a fundação do estado religioso e social sobre a vontade do homem, em lugar da vontade de Deus; em uma palavra, é a anarquia, porque quer ver a Deus destronado e o homem em seu lugar. Eis porque se chama Revolução, ou seja, ‘subversão’, porque coloca em cima, aquele que segundo a lei eterna deveria estar em baixo, e coloca abaixo Aquele que deveria estar em cima1.
(GAUME, Jean-Joseph. La Révolution: Recherches Historiques. Paris: Libraires-Editeurs, 1856. p. 16-17

De fato, não há pretensão mais clara no espírito revolucionário do que esta expressa nas palavras de Mons. Gaumé: a subversão de toda ordem que não tenha sido estabelecida pelo homem. Neste sentido, cabe dizer que nem toda insurreição armada de grandes proporções, ou revolta contra um sistema, mereça o famigerado titulo de Revolução. Para ser de fato uma revolução, precisa trazer consigo a pretensão radical de transformar toda a face da sociedade, sua moral, sua cultura, sua religião e mentalidade etc., e poucas revoltas foram capazes de tal feito, como o foram, a pseudo-Reforma Protestante, a Revolução Francesa e a Revolução Comunista. Por isso, ouso chama-las de revoluções mater, pois delas insurgiram todos os focos revolucionários subsequentes da modernidade.
Todas as revoluções são feitas por um pequeno grupo de agitadores que conquista demagogicamente as massas com falsas promessas de um mundo novo. Para concretizar estas promessas, exigem que o poder politico seja concentrado em suas mãos. Por isso, dizia Marx que “toda revolução é política”, embora, sua essência seja mais espiritual que política.

Notas:

1. MARX, Karl. 18 Brumário de Luis Bonaparte.